Quando a política externa vira palco: o erro de pedir a Trump que classifique CV e PCC como terroristas

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A política brasileira já produziu episódios de oportunismo retórico suficientes para surpreender pouco. Ainda assim, a movimentação de Flávio Bolsonaro ao pedir que Donald Trump classifique o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas parece atravessar uma fronteira delicada: a do uso político de um problema gravíssimo de segurança pública para produzir espetáculo ideológico internacional.

A criminalidade organizada no Brasil é um problema real, brutal e urgente. PCC e CV ampliaram seu alcance territorial, econômico e até internacional. Dominam rotas, intimidam comunidades, movimentam milhões e desafiam o Estado brasileiro. Nada disso está em discussão. O problema é outro: transformar um debate técnico e jurídico em uma performance política para agradar setores ideológicos e alimentar narrativas de alinhamento automático aos Estados Unidos.

A pergunta que precisa ser feita é simples: por que um senador brasileiro busca a chancela de um presidente estrangeiro para enquadrar facções criminosas nacionais? Desde quando a soberania brasileira terceiriza sua política de segurança para Washington? Se o Brasil entende que organizações criminosas devem receber tratamento excepcional, o caminho institucional é dentro do Congresso Nacional, do Judiciário, das agências de inteligência e da diplomacia brasileira — não um pedido político direcionado à Casa Branca.

Existe ainda um problema jurídico relevante. Terrorismo, em termos legais, não é sinônimo de violência extrema ou brutalidade. O conceito costuma envolver motivação política, ideológica ou religiosa para intimidação social ou desestabilização do Estado. PCC e CV são, antes de tudo, organizações criminosas com fins econômicos. Chamar tudo de terrorismo pode soar forte no discurso, mas enfraquece a precisão legal necessária ao combate ao crime organizado. É política feita no grito.

A adesão de Trump ao pedido — ainda que simbolicamente — levanta outro desconforto: o risco de internacionalizar a crise de segurança brasileira sob uma lógica de dependência externa. Os Estados Unidos têm seus interesses estratégicos, suas agendas e seus próprios cálculos políticos. Quando um país estrangeiro passa a rotular grupos internos brasileiros, abre-se um precedente delicado. Hoje são facções criminosas; amanhã, quais outras agendas nacionais poderão ser influenciadas sob pressão internacional?

Há também um evidente cálculo político. O bolsonarismo há tempos busca manter vivo um eixo de proximidade simbólica com Trump, mesmo após derrotas eleitorais e rearranjos políticos internos. Nesse contexto, o episódio parece menos uma política pública séria e mais uma encenação de fidelidade ideológica — uma fotografia política para consumo da base, acompanhada do discurso de “linha dura” que costuma render aplausos rápidos e soluções escassas.

O combate ao crime organizado exige inteligência financeira, cooperação internacional coordenada, controle de fronteiras, fortalecimento das polícias, sistema prisional reformado e integração federativa. Exige estratégia — não espetáculo. Quando um tema dessa gravidade vira ferramenta de marketing político, perde-se tempo, credibilidade e foco.

No fim, a sensação é amarga: em vez de liderar um debate maduro sobre como sufocar financeiramente facções que aterrorizam milhões de brasileiros, parte da classe política parece mais interessada em transformar a tragédia da violência em palanque global. E isso não fortalece o país. Apenas reforça a impressão de que, para alguns, governar é performar.

O Brasil precisa de soluções duras para o crime organizado. O que não precisa é de patriotismo seletivo — aquele que, curiosamente, pede ajuda estrangeira quando convém ao roteiro político.

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