Lula venceu. Para a direita, fica uma pergunta: com Tarcísio, o resultado poderia ter sido diferente?
Foi de virada. E, para quem acreditou até o fim, a vitória de Lula representa também a derrota de um projeto político que parecia ter transformado a polarização em sua principal razão de existir. Após sair atrás de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, Lula reverteu o resultado e conquistou mais um mandato.
Talvez estejamos diante do começo do fim do bolsonarismo como comando incontestável da direita. Seu eleitorado não desaparece com uma derrota. Mas a capacidade da família Bolsonaro de se apresentar como o único caminho para vencer a esquerda passa a enfrentar uma pergunta incômoda: até quando a direita aceitará vincular seu futuro a um sobrenome?
A derrota abre espaço para essa discussão. Renan Santos, adversário de Lula, atribuiu o resultado à arrogância do bolsonarismo e criticou uma estratégia concentrada em ataques e engajamento digital. A contestação, portanto, também vem de dentro do campo que pretendia derrotar o PT.
É nesse cenário que surge a hipótese: se o candidato tivesse sido Tarcísio de Freitas, talvez a direita tivesse ganhado.
Não há como afirmar isso como certeza. Uma eleição que não aconteceu não pode ter seu resultado demonstrado. Tarcísio enfrentaria sua própria campanha, seus questionamentos e o desgaste de uma disputa nacional. Ainda assim, a hipótese merece ser discutida.
O argumento a seu favor seria a possibilidade de apresentar uma candidatura com maior ênfase em gestão e menor dependência da identidade familiar dos Bolsonaro. Se conseguisse preservar o eleitor conservador e, ao mesmo tempo, conquistar pessoas resistentes ao bolsonarismo, poderia ampliar a competitividade da direita.
Esse caminho, porém, teria uma contradição: como herdar os votos bolsonaristas sem herdar também sua rejeição? Aproximar-se demais poderia limitar a expansão; afastar-se poderia custar apoio. Uma eventual candidatura de Tarcísio precisaria resolver esse dilema, e não apenas trocar o nome na urna.
Por isso, a discussão sobre o fim do bolsonarismo precisa ir além da derrota de Flávio. O encerramento desse ciclo dependeria de a direita construir autonomia política, novas lideranças e um programa que não exigisse a bênção permanente da família Bolsonaro.
A força conservadora no Congresso mostra que a direita continua relevante. O que está em questão é quem terá autoridade para conduzi-la e quais métodos serão capazes de conquistar uma maioria presidencial.
Para Lula, a vitória traz oportunidade e cobrança. O desgaste do adversário ajuda a explicar uma disputa, mas não resolve os problemas do país. Caberá ao governo transformar o apoio recebido em resultados concretos e evitar que a frustração prepare uma nova reação eleitoral.
Foi de virada. E eu acredito na vitória. Mas acredito também que as urnas podem ter aberto uma ruptura: a direita continuará existindo, enquanto o bolsonarismo talvez tenha começado a perder o direito de falar por toda ela.
Tarcísio teria vencido? Talvez. A certeza é outra: depois dessa derrota, a direita terá de discutir se a fidelidade à família Bolsonaro fortalece seu futuro ou limita suas possibilidades.

