Conto: O Muro Entre as Janelas

CULTURA

Na pequena cidade de Vencidos, todas as casas tinham janelas que se abriam para a praça central. Era uma praça simples, com bancos gastos, um chafariz que gotejava mais do que jorrava, e um enorme mapa da cidade pintado no chão por alguma gestão antiga.

As pessoas costumavam olhar pela janela para observar a vida. Com o tempo, porém, ninguém mais olhava para a praça — olhavam apenas umas para as outras.

Tudo começou numa manhã qualquer, quando duas vizinhas, Dona Alzira e Dona Matilde, discordaram sobre a cor ideal para pintar o chafariz. Alzira queria azul-marinho. Matilde, amarelo-sol. A discussão foi crescendo, crescendo… e logo toda a cidade se dividiu: os Azurianos e os Solarianos.

Os Azurianos penduravam panos azul-marinho nas janelas e diziam que os Solarianos eram alienados; já os Solarianos pregavam fitas amarelas por toda parte e diziam que os Azurianos eram teimosos.

Com o tempo, as janelas começaram a se fechar.

Ninguém mais conversava na padaria.
Ninguém mais jogava dominó na praça.
Até o padeiro passou a assar pães diferentes: pão azul para uns, pão amarelo para outros.
Se alguém ousasse pedir o “pão do outro lado”, virava alvo de cochichos.

A praça, antes ponto de encontro, virou um território de disputa visual. Pintaram metade de azul e metade de amarelo. Até o chafariz — pobre chafariz! — foi dividido no meio. A água pingava indecisa.

Mas um dia, algo aconteceu.

Crianças — as únicas que ainda ousavam brincar juntas — começaram a desenhar no meio da praça. Usaram giz branco, rosa, verde, vermelho, lilás… e não se importaram com onde começava o azul ou onde terminava o amarelo. Desenharam flores que ultrapassavam fronteiras e nuvens que ignoravam fronteiras.

Quando os adultos perceberam, ficaram indignados.

— Estão misturando tudo! — gritou um.
— Estão desrespeitando nossas cores! — bradou outro.

Mas as crianças continuaram desenhando, rindo e correndo, até que o chão inteiro virou um tapete multicolorido.

Então, silenciosamente, um senhor que ninguém conhecia muito bem — chamavam-no apenas de Seo Benvindo — aproximou-se do chafariz, limpou a divisão entre as cores e, sem pedir permissão, pintou uma estreita faixa branca unindo os dois lados.

— Que cor é essa aí? — perguntou uma mulher, desconfiada.

— Nenhuma — respondeu ele. — E todas.
— Isso é contra as regras! — exclamou um dos líderes dos grupos.
Seo Benvindo apenas sorriu:
— Regras que impedem diálogo são só muros disfarçados.

A cidade ficou inquieta.

De repente, não era mais sobre cores. Era sobre decidir se valia a pena continuar brigando. Alguns, envergonhados, olharam para as crianças, que não paravam de desenhar.
Outros permaneceram rígidos, segurando seus panos e fitas.

Mas havia algo inegável:
As crianças pareciam mais livres.
E mais felizes.

Aos poucos, uma senhora de azul guardou seu pano.
Um jovem de amarelo largou sua fita.
Depois outro, e outro…

Ninguém pediu desculpas — orgulhos demais ainda resistiam — mas começaram a olhar de novo pela janela para a praça, não uns para os outros.

E o chafariz, finalmente, jorrou um fio de água mais forte, como se tivesse esperado esse momento.

Não ficou azul, nem amarelo.

Ficou simplesmente água — transparente, necessária, comum a todos.

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