Pampulha segue sem solução definitiva

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A Lagoa da Pampulha, um dos principais símbolos de Belo Horizonte, segue enfrentando dificuldades para alcançar a despoluição prometida desde os anos 1990. Embora ações pontuais tenham sido realizadas ao longo das últimas décadas, o espelho d’água ainda sofre com problemas estruturais que impedem a recuperação definitiva.

O principal deles continua sendo o lançamento de esgoto clandestino nos córregos Sarandi, Ressaca e Mergulhão. Mesmo após a ampliação da rede de coleta em Belo Horizonte e Contagem, falhas na infraestrutura e ligações irregulares mantêm a entrada de resíduos sem tratamento na lagoa. Técnicos que acompanham a situação afirmam que pequenas ligações clandestinas, espalhadas pela bacia, são suficientes para comprometer todo o processo. “Enquanto houver esgoto chegando, não há como estabilizar a Pampulha”, afirma um engenheiro consultado pela reportagem.

O assoreamento é outro fator que agrava a situação. A cada período de chuvas, toneladas de sedimentos são carregadas para dentro da lagoa, reduzindo sua profundidade e favorecendo a proliferação de algas. Dragagens vêm sendo realizadas repetidamente, mas especialistas classificam a operação como um trabalho de manutenção sem fim. Sem intervenções estruturais nas áreas de erosão, o material volta a se acumular rapidamente, fazendo com que o efeito das dragagens dure pouco.

A complexidade administrativa também contribui para o atraso nas soluções. A bacia da Pampulha envolve duas prefeituras — Belo Horizonte e Contagem —, além de órgãos estaduais e da COPASA, responsável pelo saneamento. A divisão de responsabilidades cria conflitos sobre custeio, execução e prazos. Projetos iniciados por uma gestão muitas vezes são interrompidos ou remodelados pela seguinte, dificultando a continuidade necessária para um processo tão complexo.

Os investimentos irregulares ao longo dos anos também prejudicam a recuperação. O tratamento de esgoto, a manutenção dos interceptores, o monitoramento da água, as dragagens e as ações educativas exigem recursos altos e constantes. Porém, os repasses públicos variam conforme as prioridades políticas e a disponibilidade orçamentária, o que impede que os esforços se consolidem.

Outro ponto frágil é a fiscalização. Denúncias de ligações clandestinas e lançamentos irregulares são frequentes, somadas à baixa conscientização da população sobre o descarte inadequado de lixo e o uso incorreto das redes urbanas. Especialistas afirmam que, sem a participação ativa das comunidades da bacia, mesmo grandes obras de saneamento não serão suficientes para estabilizar o ecossistema.

Além disso, a própria natureza da Pampulha dificulta sua recuperação. Como é uma lagoa artificial, com baixa renovação hídrica e grande tendência à eutrofização, o processo natural de restauração é lento, mesmo que a entrada de esgoto fosse totalmente interrompida. Técnicos afirmam que a recuperação completa exigiria anos de manejo contínuo.

Apesar dos entraves, há consenso de que a recuperação é possível, desde que tratada como política de longo prazo. Isso inclui integração entre os municípios, investimentos estáveis, fiscalização rigorosa e ações permanentes de educação ambiental. A Pampulha, patrimônio cultural e ícone da arquitetura moderna brasileira, permanece como um dos mais importantes cartões-postais da cidade. Contudo, para que volte a ter condições adequadas para navegação e uso recreativo, será necessário transformar promessas históricas em um compromisso contínuo e integrado entre poder público, especialistas e população.

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