O resultado das eleições de 4 de outubro deve preocupar quem entende a democracia como algo maior do que uma disputa por maioria. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, enquanto o PL ampliou sua presença no Congresso e conquistou governos estaduais. A Presidência ainda será decidida no segundo turno, mas o fortalecimento político do bolsonarismo já está demonstrado nas urnas.
Minha posição diante desse avanço é de oposição. Não porque o eleitorado de direita tenha menos direito à representação, mas porque nenhuma vitória eleitoral deveria servir de autorização para enfraquecer os limites do poder. A legitimidade conquistada pelo voto exige compromisso com as instituições, com os direitos fundamentais e com a liberdade de quem pensa diferente.
O ponto mais preocupante dessa nova onda é a possibilidade de transformar força parlamentar em instrumento de intimidação institucional. A eleição de aliados que defendem o impeachment de ministros do Supremo coloca essa discussão no centro do próximo período político. Fiscalizar autoridades é legítimo. Usar mecanismos constitucionais como ameaça de retaliação seria outra coisa: significaria pressionar a Justiça a se ajustar à conveniência de uma maioria.
Por isso, a avaliação de Flávio Bolsonaro precisa ultrapassar o tom de voz, a apresentação pessoal e a comparação com o pai. Uma aparência mais moderada não basta para demonstrar compromisso democrático. É necessário examinar propostas, alianças e, sobretudo, a disposição de aceitar decisões contrárias aos próprios interesses. A moderação relevante aparece no exercício do poder.
Também considero empobrecedor que a renovação política brasileira continue passando pela centralidade de uma família. Sobrenome não substitui projeto de país. O Brasil precisa discutir como melhorar a escola pública, reduzir a espera por atendimento médico, enfrentar o crime e ampliar a renda. A fidelidade a uma liderança não pode ocupar o lugar da cobrança por resultados.
Nada disso autoriza desprezar os milhões de brasileiros que votaram nesse campo. Há insatisfações reais que precisam ser ouvidas: medo da violência, insegurança financeira, frustração com serviços públicos e descrença nos representantes. Tratar todo eleitor conservador como inimigo é injusto e politicamente estéril. O confronto necessário é com as propostas e práticas que ameaçam direitos, não com a dignidade de quem vota.
A esquerda e as demais forças democráticas também precisam assumir suas responsabilidades. Defender a democracia não dispensa governar bem, prestar contas e reconhecer erros. Nenhum partido tem direito adquirido ao voto popular. Se o cotidiano permanece difícil, discursos sobre conquistas passadas perdem força. A resposta ao avanço da extrema-direita exige presença social, competência administrativa e propostas compreensíveis.
Isso, porém, não torna aceitável qualquer alternativa oferecida em nome da mudança. Segurança pública precisa ser cobrada por sua capacidade de proteger vidas e reduzir crimes. Política econômica deve ser avaliada pelo emprego, pela renda e pelas oportunidades que produz. Valores familiares não podem justificar a exclusão de famílias diferentes. Liberdade de expressão deve proteger também jornalistas, artistas, professores e cidadãos que criticam o governo.
O resultado de domingo exige oposição democrática firme: fiscalização dos eleitos, acompanhamento das votações, defesa da imprensa livre e participação na vida pública. Respeitar as urnas inclui reconhecer os vencedores e continuar contestando suas decisões quando necessário.
Flávio Bolsonaro e seus aliados devem enfrentar essa cobrança desde agora. O apoio eleitoral que receberam não torna suas propostas imunes à crítica nem reduz os direitos de quem se opõe a eles. Uma democracia se mede também pela segurança com que alguém pode discordar de quem venceu. É esse princípio que precisamos defender, especialmente quando a maioria parece disposta a esquecer sua importância.

