Flávio Bolsonaro entre dois governos americanos: o risco de apostar quatro anos em uma aliança de dois

Brasil Gerais Mundo Política

Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro colocaria seu governo diante de um calendário internacional decisivo. Seu mandato começaria em 5 de janeiro de 2027, enquanto o atual mandato de Donald Trump termina em 20 de janeiro de 2029. Portanto, aproximadamente metade da administração brasileira coincidiria com Trump na Casa Branca; a outra metade, com o governo escolhido pelos americanos em 2028. Pelas regras constitucionais vigentes, Trump não pode ser eleito presidente uma terceira vez.

Essa diferença de calendários expõe uma vulnerabilidade: construir uma estratégia de quatro anos sobre a proximidade com um aliado que permanecerá no cargo por apenas dois. O sucessor poderá preservar parte da orientação de Trump, modificar suas prioridades ou pertencer ao Partido Democrata. Nenhum desses resultados está definido.

A palavra “tutela”, nesse contexto, exige cuidado. O Brasil não está formalmente subordinado ao governo americano. O que pode existir é uma dependência política criada por escolhas próprias: quando um presidente associa sua autoridade, sua diplomacia e suas expectativas econômicas à proteção de uma liderança estrangeira. É essa possibilidade que merece análise.

A aproximação de Flávio com Trump e sua disposição de alinhar o Brasil à agenda regional americana já aparecem no debate internacional sobre a eleição. Mas afinidade ideológica não elimina diferenças entre os interesses dos dois países.

Nos primeiros dois anos, uma relação próxima poderia facilitar interlocução, abrir negociações e oferecer visibilidade internacional ao presidente brasileiro. Flávio também poderia apresentar essa proximidade ao seu eleitorado como demonstração de prestígio. O problema seria transformar acesso à Casa Branca em sinônimo de vantagem garantida para o Brasil.

Uma fotografia entre presidentes não assegura melhores condições comerciais. Declarações de amizade não definem os termos de investimentos, acordos tecnológicos ou cooperação em segurança. Cada compromisso precisaria ser examinado por seus resultados concretos, suas contrapartidas e seus efeitos sobre a autonomia brasileira.

A dimensão econômica impõe limites ao alinhamento. Como observou o ex-embaixador americano Thomas Shannon, um eventual governo Flávio teria de considerar o tamanho do Brasil e seus vínculos com parceiros como China e Europa. A convergência com Washington não faria desaparecer essa rede de interesses.

A partir daí, surge o risco de uma política externa apressada. Caso enxergasse os dois anos restantes de Trump como uma oportunidade excepcional, um governo Flávio poderia tentar acelerar compromissos estratégicos. Isso não significa que necessariamente o faria, mas é um incentivo plausível. A questão seria saber se decisões com efeitos duradouros passariam por avaliação técnica, transparência e controle institucional suficientes.

Em 2029, esse conjunto de escolhas encontraria um novo teste.

Se um republicano próximo de Trump vencesse, haveria possibilidade de continuidade ideológica. Ainda assim, o novo presidente teria seus próprios aliados, prioridades e necessidades eleitorais. Flávio precisaria negociar com outra liderança, sem garantia de herdar a mesma atenção ou o mesmo acesso. A continuidade partidária reduziria algumas incertezas, mas não eliminaria a necessidade de adaptação.

Se os democratas conquistassem a Casa Branca, a mudança poderia ser mais sensível. Um governo brasileiro profundamente identificado com Trump talvez precisasse reconstruir interlocuções e rever sua comunicação diplomática. Dependendo do programa e da composição da nova administração americana, temas ambientais, direitos humanos e instituições democráticas poderiam adquirir maior peso na relação bilateral.

Esse cenário, entretanto, não permite prever isolamento automático, sanções ou ruptura. Governos de orientações distintas mantêm relações comerciais e cooperação estratégica quando há interesses convergentes. Uma administração democrata também buscaria vantagens para os Estados Unidos. A diferença estaria nas prioridades, nos instrumentos e nas condições da negociação.

O custo mais imediato de uma alternância poderia ser político dentro do próprio Brasil. Se Flávio vinculasse excessivamente sua imagem à força de Trump, uma derrota do campo trumpista enfraqueceria essa narrativa. Sua oposição poderia questionar os benefícios da aposta; seus apoiadores poderiam cobrar fidelidade ao antigo aliado justamente quando o governo precisasse de pragmatismo para lidar com o novo.

O calendário tornaria esse ajuste especialmente delicado. A administração americana seguinte assumiria em 2029, quando um eventual governo Flávio entraria na segunda metade do mandato e se aproximaria da eleição brasileira de 2030. Uma dificuldade diplomática poderia, assim, somar-se às cobranças internas por crescimento, emprego e resultados.

Isso não significa que Washington determinaria o destino do governo brasileiro. A economia, a relação com o Congresso, a capacidade administrativa e a avaliação dos eleitores continuariam fundamentais. A influência externa pode alterar condições e oportunidades, mas não substitui a política doméstica.

A conclusão analítica é que o principal risco está na personalização da relação bilateral. Quanto mais a parceria depender da ligação entre Flávio e Trump, maior será a exposição brasileira à sucessão americana. Quanto mais estiver apoiada em instituições, interesses verificáveis e canais plurais de diálogo, maior será sua capacidade de atravessar mudanças.

Se vencer, Flávio Bolsonaro terá de governar um país cujos interesses ultrapassam tanto seu mandato quanto o de seu aliado. A qualidade de sua política externa será medida pela capacidade de negociar com Trump e com quem vier depois dele. Apostar o futuro brasileiro na permanência de uma corrente política estrangeira seria entregar a outro eleitorado uma parcela desnecessária das nossas próprias escolhas.

Please follow and like us:
Pin Share

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *